17 de abril de 2009

Recomeçar

Parábola dos Potes de Barro



Havia dois grandes e belos potes de barro que conversavam entre si no canto
de um quintal:
- Ah..., que tédio, que vida! Viver aqui, exposto a tudo, sol, vento, chuva, calor...
Por mais que eu me proteja, como sobreviverei? Aqui estou perfeitamente
tampado, lacrado para proteger-me e ainda assim sinto-me ameaçado, vazio.
Não vejo graça em estar aqui...
O outro pote tranqüilamente respondeu:
- Cai a chuva e eu a recebo. Vem o vento e eu o sinto bem dentro de mim.
Vem o sol e me leva as gotas que retornam para o céu. E nem por isso sinto-me
ameaçado...
- Ora, grande vantagem! Seu interior não guarda mais a cor original como o
meu, sua cor vai ficando cada dia mais diferente. Você não é mais o mesmo...
- Sim (respondeu o outro) e isso me alegra! Meu interior transforma-se a cada
dia, à medida que novas coisas me penetram. Posso sentir cada criatura que
me visita e cada uma delas deixa algo de si para mim, assim como deixo para
elas, pouco a pouco, a minha cor.
- É, mas você não tem mais paz! A todo instante você é solicitado, carregam
você todo o dia para levar água, ao passo que eu permaneço no meu lugar.
Ninguém me incomoda. Quando se aproximam, já sei que é a você que eles
querem.
- Sim, se me solicitam é porque tenho algo a dar, e o que dôo não é diferente
do que você pode dar. Deixo-me encher pela água da chuva, que cai tanto
sobre mim como sobre você. Encho-me até transbordar. Outros seres
precisam desta água e eu os sirvo. Esvazio-me e deixo-me encher de novo.
Assim minha vida é um constante dar e receber. Enquanto isso me desinstalo,
saio do meu pequeno mundo e vou ao encontro de outros mundos. Já conheci
potes diversos, animais, pessoas, tantas coisas e seres... E cada um faz-me
perceber ainda mais o pote que sou.
- Não sei, mas se você continuar assim, brevemente será um pote quebrado,
gasto, e então, de que adiantará tudo isto?
- Creio que se me desgasto a cada dia é para ser possível levar a vida a outros
seres. Vejo que o mais importante não é ser um pote intacto tal como fui feito,
mas um pote de valor no qual estou me tornando. Se vou durar pouco tempo,
não importa; se o pouco tempo que eu viver trouxer-me alegrias e fizer-me
sentir cada vez mais o que é ser pote, isso me basta...
Já era tarde, o sol já havia se escondido quando os dois se cansaram de falar.
O pote aberto, sentindo-se cansado, logo adormeceu, o que não foi possível
para o outro pote. Ele não conseguira dormir, pois algumas palavras ditas pelo
companheiro vinham-lhe à mente e não o deixavam em paz.
Transformar o interior! Paz! Esvaziar-se! Deixar-se encher! Deixar algo de si!
Ser pote! Desinstalar-se! Sair de seu pequeno mundo! Ser feliz! Ser útil! Levar
alegria! Humildade! Paciência! Mansidão!

Na manhã seguinte, enquanto um pote acordava, o outro dormia, porque fora
grande o seu esforço para tirar a tampa que o acompanhava há tanto tempo.

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